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Pesquisa encontrou vestígios de fibras de plástico microscópicas em 83% das amostras testadas em várias cidades do mundo, inclusive no Brasil

Sinônimo de praticidade, o plástico se tornou tão útil na vida moderna a ponto de ser encontrado por todos os lados — até onde não deveria.

Evidências científicas crescentes demonstram que a onipresença do plástico em produtos cotidianos (de embalagens à cosméticos, passando por roupas e artigos domésticos) tem contribuído para uma poluição sem precedentes no meio ambiente, e que não respeita fronteiras.

A contaminação das águas dos oceanos por detritos do material é um dos efeitos mais estudados pelos cientistas. Além de formar imensos bolsões de resíduos à deriva no mar, o lixo plástico já atinge as remotas praias do Ártico e as regiões mais profundas dos oceanos.

Agora, um estudo inédito revela que micropartículas plásticas podem estar presentes até mesmo na água potável que é servida à população em vários países do mundo. A pesquisa, divulgada nesta semana pela organização Orb Media, encontrou vestígios de fibras de plástico microscópicas em 83% das 159 amostras coletadas de várias partes do mundo.

Foram encontradas microfibras plásticas até mesmo na água engarrafada e em casas que usam filtros de osmose reversa, um dos processos mais utilizados para fazer a purificação da água.

A pesquisa feita com apoio da Escola de Saúde Pública da Universidade de Minnesota, que centralizou as análises globais, mostra que dos salões do Congresso dos EUA até as margens do Lago Victoria, em Uganda, mulheres, crianças, homens e bebês estão consumindo plástico em  cada copo de água.

Ou seja: os microplásticos não estão apenas sufocando os oceanos, mas também a água potável do mundo. Inclusive a do Brasil.

Em parceria com a Orb, o jornal Folha de S.Paulo, coletou 10 amostras extras de águas em residências da capital paulista e as enviou para análise na Escola de Saúde Pública da Universidade de Minnesota. A análise revelou que nove em cada 10 amostras continham microfibras de plástico.

A empresa de saneamento de São Paulo, Sabesp, assim como as demais empresas do setor no Brasil, não faz a filtragem desse material. Não há obrigação legal para que isso ocorra.

Na maioria das vezes, as fibras de vestuário são muito pequenas para serem filtradas nas estações de tratamento de águas residuais e acabam sendo descarregadas em córregos, rios, lagos e, eventualmente, no oceano.

Nós acreditamos que o acesso a água limpa é um direito humano, disse em nota Jane Patton, diretora geral do Plastic Pollution Coalition, entidade internacional que reúne representantes de Ongs, empresas e governos para combater a poluição plástica.

Riscos à saúde?

Independentemente do tamanho do detrito, os plásticos muitas vezes contêm uma ampla gama de substâncias químicas usados para alterar suas propriedades ou cores e muitas delas têm características tóxicas ou de disrupção endócrina (imitam hormônios capazes de interferir no sistema endócrino). Para piorar, os plásticos também podem atrair outros poluentes, incluindo dioxinas, metais e alguns pesticidas.

Para os cientistas, o desafio é duplo: de um lado repensar os padrões de consumo e produção de plástico no mundo, incluindo aí formas de recolher e reaproveitar esses resíduos impedindo que eles contaminem o ambiente; e do outro, identificar os riscos que a ingestão de microplástico representa para os seres humanos.

A tarefa não será fácil. Como revelou estudo recente, o mundo já produziu 8,3 bilhões de toneladas de plástico desde que a produção em larga escala de materiais sintéticos começou, no início da década de 1950. É tanto plástico que equivale a cerca de 25 mil vezes o peso do Empire State Building, em Nova York. De todo esse lixo, apenas 9% foi reciclado, 12% foi incinerado e 79% está acumulado em aterros ou poluindo o ambiente natural.

Fonte: Exame – 07/09/17

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